segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Sociedade Machista Passiva

Padre Melo e Travesti

Sociedade Machista Passiva

Eu não nasci sabendo o que eu era
Ninguém cura a escolha que já nasceu
Antes de eu trocar a bola pela boneca
A doença que você nega mas já cedeu

Desde quando era violentada
Por querer brincar de casinha
Eu não fui uma criança amada
Eu não queria o que tinha

O espelho era o maior fantasma
De quem vê e não aceita a forma
Que sociedade apenas pasma
Com a hipocrisia que conforma

Você me procura em cada olhar e esquina
Nessa hora eu sou teu amor e tua menina
Em seguida levo um soco e o beijo o chão
De quem julga a capa sem sentir um coração

Eu preciso seguir em frente mesmo sem perspectiva
A sociedade machista no fundo é passiva
Na cortina de fumaça me transforma em aberração
E cada versículo do livro vira uma lição

Uma incitação contra o natural
Um distorção de um débil mental
Que acha que o Deus do amor
Acha travesti um transgressor

Eu precisei fugir várias vezes de mim
Para me encontrar na rota de colisão
De um navio que nunca atraca sem razão
No preconceito daqueles cujo ódio não tem fim...

Professor Pasquale




quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Automutilação


E hoje não suporto saber que falhei novamente
Como todas as vezes que tentei ir em frente
O sangue espalhado no chão como as flores num caixão
Perseguem o cheiro indolor de uma vida quase em vão

A dor latente de um terremoto na cabeça
Que chacoalha a vida antes que eu me esqueça
Rastejando moribundo escutando o ecoar do sino
Reforçando que ainda há sobrevida no meu destino

Agora a vergonha que mancha a roupa e a alma
A lama vermelha espalhada por todo o banheiro
Cujo farol não inclina em nenhum nevoeiro
Nenhum alvejante é capaz dar a vida e calma

Aquele que experimenta todas as perturbações e fracassos
Deitado sob o gelo do lago com a corda que arrebenta
Beijando o reflexo de alguém sem qualquer tipo de laços
Atados na imersão do cemitério de sentimentos que atormenta

A maçaneta quebrada que não abre a porta de outro mundo
Que permite uma outra chance insuportável de errar
A insistente automutilação que apenas faz machucar
Retardando o fim de um pesadelo tão intenso e profundo.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Roda da vida: Escolher x esconder.

Roda da Vida

Eu tive que escolher caminhar ao invés de esperar
Eu tive que esconder falhar sempre antes de decidir
Não há mais tapete que possa voar nem camuflar
Toda a sujeira e vergonha que escolhemos seguir

Eu tive que escolher deixar ao invés de matar
Eu tive que esconder viver ao invés de ser
Não há mais asfalto para trilhar nem beijar
Toda imposição e escolha que fizemos para viver

Eu tive que escolher viver ao invés de sobreviver
Eu tive que esconder ser digno e não mais implorar
Não há mais migalhas para as formigas sem alimentar
Todo verme usurpa a alma de quem deixa escolher

Eu tive que escolher recomeçar ao invés de persistir
Eu tive que esconder estar mal para poder fingir
Não há mais milagre para contemplar mais ressuscitações
Todo renascimento e morte implica em mais orações

Eu tive que escolher escrever ao invés de engolir
Eu tive que esconder as mágoas ao invés de dramatizar
Não há mais novela para esse nosso pobre nobre horário
Todo tempo perdido é como um peixe fora do aquário

Eu tive que escolher dar a cara ao invés de esconder
Eu tive que esconder a sua partida para não morrer
Não há mais relacionamento para que me deixe enganar
Toda recaída, ilusão e pseudo amor que você tenha a dar...

domingo, 31 de dezembro de 2017

Calendário



Tudo tem seu lugar e sua finitude
Assim como a vida no meio tem um ano
Que segue o calendário na plenitude
Ele não pára não importa o dano

E tudo o que se tem é tempo nessa vida
Mas não há dinheiro que compre um minuto
Não há preço pela (in)felicidade vivida
Não há quem controle o relógio absoluto

Em 365 dias muita coisa muda de espaço
A vida é sempre uma estrada em construção
A cada escolha se transforma em conurbação
Entre o passado e o futuro que cria o laço

Prendendo e libertando aquele sentimento
Reformulando uma força mágica de vontade
De promessas e mudanças, criar o próprio vento
Ser alguém que não olha pra trás com saudade

O novo, às vezes, pode ser o passado requentado
Uma energia extra para tentar seguir em frente
Deixando o mais incrédulo apenas apaixonado
Pela perspectiva do novo ali passando rente

Algumas vezes ninguém sabe aonde vai chegar
E nem como esse ano vai ser e acontecer
A ansiedade vira a única luz a se guiar
Mesmo que no verão demore a entardecer

O homem de muita fé tem dúvidas e questões
Ajoelha e reza para o calendário trocar a maré
Sente-se solitário no meio das multidões
Carrega a milhares de km sua mochila a pé

Cada um carrega seu próprio fardo e destino
Cabe decidir se num toque leve de desatino
Fiquem somente as coisas boas a carregar
A esperança, a empatia e o amor possam vigorar.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Promessas Vazias







Não sei quantas promessas fizemos desde a última vez
Sem atropelamentos, sem compreensão e sem rendição
Não sei quando a empatia deixou de ser a bola da vez
Nos entregamos a cada encontro como se fosse a única opção

Com uma frieza profissional tentamos seguir adiante
Até a próxima queda, até a próxima desilusão
Com um coração inquieto e um olhar sempre distante
A vida tenta seguir e voar para mesma a direção

Nós fingimos ser o dono do próprio nariz
Estufando o peito e falando "sou o que sempre quis"
Até o próximo convite para a eterna perdição
Ajoelhado e implorando mais um pouco de paixão

Um sentimento que no outro dia deixa o vazio
Um pinball e um quebra-cabeça a se resolver
De alguém que não encontra a si mesmo
Mas encontra a todo mundo querendo esquecer

Não lembrar como foi a última noite em vão
A última vez que pode sentir o coração
Persistindo no mesmo erro e estrada
Como o tudo que significa nada

Todas as noites de amor e alegria
Foram sonhos de algumas horas
Todas as noites de glória e euforia
Foram apenas todas garrafas vazias

É tão forte que é o mais próximo de companhia
Aquilo que traz vida também traz agonia
É preciso arrumar todas as pontes quebradas
As conexões que estão a ti engatadas

Preso no emaranhado de falsas sensações
Escravo do gostinho de não quero nunca mais
Que ludibria todas as verdadeiras emoções
As quais não as encontramos nos jornais

Escrevendo a história com final feliz
Porque no fundo nós queremos acreditar
Que ela pode ser reescrita em giz
Nos braços de alguém que possa nos amar...


domingo, 10 de dezembro de 2017

A prece

A prece

Pude perceber que o sacrifício que você fez por mim
Não pude retribuir como deveria no nosso fim
Que não importa o quanto eu me entregasse
Não seria suficiente para que alguém levasse

Aquele arrependimento ou ação inoportuna
Que assombra o marujo mais experiente
Quando a tormenta se transborda na mente
A onda se propaga na oração noturna

A prece que não apaga e nem acende
A vela que busca um sopro de resposta
Da necessidade que não se entende
Quando nada mais nos importa

Perdoai aqueles que não se perdoam
Abençoai aqueles que não se doam
Na calamidade de sua própria conduta
Na fragilidade de sua própria luta

Perdoai aqueles que se ajoelham no altar
E ignoram o chamado do navio prestes a afundar
Abençoai aqueles que aceitam a sua trajetória
Inertes e clementes destruindo a sua história

Nunca me perdoei por não te perdoar
Da forma como você me fez sentir
Enquanto repreensão era o que podia dar
Nas escolhas de quem não sabe fingir

O lento naufrágio no mar de ressentimentos
Na mesma tragédia que se consome todo dia
Com os meus erros e incontestes sentimentos
Do dogma que nunca acreditei ser um dia

A liberdade de poder me aprisionar
Na minha vontade de escolher
Um oceano muito distante de você
Do qual eu não possa mais me culpar.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Pássaro Solitário


                                                            Pássaro Solitário

E suas últimas palavras se foram naquela curva
Retas e secas: "você precisa ser forte agora"
Não foram os estilhaços de vidros mas a água turva
Espalhando-se na pele como sangue de quem vai embora

As marcas de pneus viram cicatrizes na pista da mente
Estou patinando nas estradas da minha própria lembrança
De um cemitério inteiro de cinzas sem esperança
Daqueles que trouxeram cores no preto-branco da vida

Com olhos bem fechados rezo pros fantasmas irem agora
Ou que possa rapidamente encontra-los na próxima esquina
Ainda escuto a freada, os vidros quebrados e seu corpo fora
Com seu suspiro de quem finalmente conseguiu paz

Eu sabia que era inevitável aquele caminho
Não são os vidros que machucam mas a travessia
Caminhar sozinho no escuro da imensidão do dia
Do dia em que tive que saber que estaria sozinho
 
Como o voo do pássaro solitário
Que bate asas contra o vento
Que alimenta-se do amor primário
Que não se corrói pelo tempo
    
No labirinto da saudade e do pensamento
Eu desejo com um pouco de sorte
Que gratidão seja a estação do momento
Que possa ser finalmente forte..